O principal encontro mundial dedicado à prevenção do crime e à justiça criminal busca fortalecer a cooperação internacional para enfrentar novas formas de ameaças. Este ano, o evento terá como foco os impactos da tecnologia sobre a criminalidade global e as respostas das instituições de segurança e justiça diante de ameaças cada vez mais complexas, como crimes cibernéticos e golpes online.
Em entrevista à ONU News, a líder do UNODC alerta que o uso de tecnologias digitais por organizações criminosas “está criando um ecossistema de lucros ilícitos com um alcance muito amplo em todo o mundo.”
O 15º Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção ao Crime e Justiça Criminal, principal encontro mundial dedicado à prevenção do crime e à justiça criminal, será realizado em Abu Dhabi, de 26 de setembro a 1º de outubro. O evento, que acontece a cada cinco anos, discutirá novas formas de ameaças e a atuação de redes criminosas transnacionais.
A diretora executiva do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Monica Juma, alerta que o uso das novas tecnologias digitais pelo crime “está criando um ecossistema de lucros ilícitos com um alcance muito amplo em todo o mundo”. Em entrevista à ONU News, Juma também ressaltou a importância do Congresso das Nações Unidas para a promoção da justiça criminal.
Crimes cibernéticos, tráfico e golpes online estarão entre os temas do evento global, que buscará fortalecer a cooperação internacional para aprimorar respostas rápidas, inteligentes e coordenadas diante de ameaças que se expandem com o uso da tecnologia.
Confira a entrevista da chefe do UNODC à ONU News:
ONU News: O Congresso da ONU sobre Crime, realizado a cada cinco anos, oferece uma plataforma para que o mundo se reúna para fazer a seguinte pergunta: como o crime mudou?
Monica Juma: O fator determinante hoje é, obviamente, a tecnologia. Há cinco anos, a tecnologia evoluía de maneira muito diferente. Agora, ela está possibilitando uma infinidade de crimes em diversos setores. O que estamos vendo é uma convergência de tipos de crimes que está criando um ecossistema de lucros ilícitos com um alcance muito amplo em todo o mundo. Com a tecnologia, milhões de pessoas podem se tornar alvos em uma fração de segundo. Não há necessidade de intermediários nem de cruzar fronteiras.
ONU News: Como o Congresso sobre Crime pode ajudar a garantir que os sistemas de justiça e de aplicação da lei nos países em desenvolvimento não fiquem para trás em meio a uma crescente exclusão digital global?
Monica Juma: A tecnologia, na verdade, não está deixando ninguém para trás. Países considerados muito avançados em termos de tecnologia são tão vulneráveis quanto os mais fracos. Os criminosos organizados não têm inibições em relação às fronteiras. Os traficantes não dependem mais apenas de pessoas que transportam outras pessoas através das fronteiras em barcos. Agora, eles também estão usando tecnologia e desinformação para criar empregos falsos e, às vezes, acabam se infiltrando em cadeias de suprimentos de negócios legítimos, incluindo serviços bancários.
É exatamente por isso que o Congresso das Nações Unidas sobre Crime é tão importante. Esse é o valor da ONU. Temos a capacidade de reunir todos à mesa, e é isso que veremos em Abu Dhabi. Haverá representantes de todas as partes do mundo.
No UNODC, estamos criando cada vez mais plataformas para a interação entre fronteiras e setores, por exemplo: investigadores, promotores, agentes de segurança pública, autoridades judiciais e até mesmo jornalistas investigativos.
O objetivo é criar uma convergência de competências que possa ser rapidamente utilizada para transmitir informações, provas ou suspeitas a alguém que possa agir com base nelas quase imediatamente.
Estamos incentivando os países a cooperarem mais, inclusive nas áreas de compartilhamento de inteligência e análise forense, entre outras, mas a capacidade de concretizar essa cooperação ainda não foi totalmente viabilizada, até o momento, por parte dos Estados-membros. Para isso, são necessárias políticas, trocas de experiências e mecanismos adequados.
ONU News: Por que a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Cibernético é tão importante?
Monica Juma: A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Cibernético foi adotada por unanimidade pela Assembleia Geral em 2024, e já contamos com mais de 80 signatários. A Convenção oferece um conjunto completo de ferramentas que facilita a cooperação entre os países e estabelece padrões semelhantes que permitirão respostas mais rápidas e ágeis a ameaças comuns.
Estamos convocando e incentivando os países a ratificá-la para que ela possa entrar em vigor, pois, até que isso aconteça, sua plena utilização será limitada.
A ratificação é um processo legislativo interno, mas muitos países com os quais conversei pessoalmente indicaram que esse processo está em andamento. Esperamos que ela possa entrar em vigor em breve.
ONU News: Centenas de milhares de vítimas de tráfico são forçadas a cometer crimes cibernéticos em centros de golpes em grande escala e em constante expansão. Como o Congresso sobre Crime pode lidar com essa situação?
Monica Juma: Em primeiro lugar, esses centros de golpes representam realmente uma crise global. Nosso último relatório sobre centros de golpes no Sudeste Asiático indicou que as vítimas eram de mais de 80 nacionalidades de todo o mundo. Trata-se de uma situação global que está se expandindo exponencialmente. Esses centros de golpes são uma verdadeira pandemia, se pensarmos bem.
Muitas vezes, eles se apresentam como oportunidades genuínas para jovens curiosos — que querem trabalhar e conhecer o mundo. É muito importante que eles sejam vistos como vítimas, e não como culpados, e que identifiquemos os verdadeiros autores do crime. São as pessoas que os estão enganando, recrutando e induzindo ao erro.
Também é importante proteger os direitos das vítimas e apoiá-las por meio de reabilitação e tratamento. Algumas delas passaram por experiências muito traumáticas, incluindo tortura e abuso, e essas experiências permanecerão com elas por muito tempo. De nossa parte, o UNODC vem apoiando o fortalecimento das capacidades dos sistemas de justiça criminal para lidar de forma eficaz com vítimas e grupos vulneráveis.
ONU News: O que pode ser feito para garantir que o Congresso sobre Crime apresente soluções reais em um momento de crescente polarização geopolítica e tensões globais?
Monica Juma: É verdade que o mundo está em uma situação muito preocupante, mas também é verdade que a ameaça do crime é algo que as pessoas sentem todos os dias em todo o mundo.
É impossível alcançar qualquer nível de produtividade ou sustentabilidade se houver insegurança no âmbito pessoal, local ou comunitário – e é exatamente isso que as drogas e o crime estão causando. Isso afeta as pessoas em todos os níveis, e essa realidade facilita a cooperação e a busca por soluções.
Assim, temos uma situação em que há uma convergência, tanto no nível da ameaça quanto no desejo de buscar soluções. Ao chegarmos a Abu Dhabi, não há debate sobre se isso é importante ou não.
Esperamos poder fortalecer as soluções apresentadas em Kyoto (sede do Congresso das Nações Unidas sobre o Crime de 2021) para agora analisar as ameaças atuais que estão sendo aceleradas por novas variáveis intervenientes, como a tecnologia.
Contamos com o papel da tecnologia para nos ajudar a responder de maneira ágil e mais eficaz, para que possamos restaurar ambientes mais seguros, proteger as comunidades e, assim, alcançar maior prosperidade para o mundo.
Para saber mais, siga @unodcprt nas redes e visite a página do 15º Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção ao Crime e Justiça Criminal.
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